Fora do ambiente hospitalar, o Núcleo do Projeto Volta à Vida tem como proposta desmistificar a doença, proporcionando às mulheres portadoras de câncer de mama encontros com outras mulheres que passam pela mesma experiência. Implantado em 1998 com o apoio da UICC – União Internacional de Combate ao Câncer e do programa “Reach to Recovery” (Alcançar a Recuperação), atualmente o núcleo funciona em uma sala cedida pela Igreja São Judas Tadeu, no Planalto Paulista.
Como nos outros núcleos, as voluntárias da Associação Paulista Feminina de Combate ao Câncer recebem um treinamento específico para trabalharem diretamente com as mulheres afetadas pelo câncer de mama. As atividades se desenvolvem em reuniões semanais, realizadas sempre às quintas-feiras, das 9 às 12 horas. A programação inclui a troca de experiências entre as participantes; palestras educativas; ginástica, alongamento e dança sênior; terapia ocupacional; passeios e atividades recreativas externas. O projeto também fornece perucas, soutiens especiais e complementos mamários, quando solicitados.

No início do projeto, a APFCC contava com um grupo que desenvolvia os próprios complementos mamários – atualmente recebe como doação e distribui para os participantes do grupo. Sua utilização não tem apenas o sentido estético, mas serve para garantir o equilíbrio das mulheres mastectomizadas, pois a retirada da mama interfere na distribuição de peso do corpo, na coluna e na postura.

Entretanto, a principal motivação para as mulheres que procuram o Volta à Vida é o contato com pessoas que passaram pela mesma experiência. Por isso mesmo, o momento de compartilhar suas histórias é considerado muito importante para a maioria das frequentadoras. A idade e a forma física variam, mas não a disposição do grupo de mulheres que fazem parte do núcleo “Volta à Vida”.

 

Depoimentos

Depoimentos de algumas frequentadoras do Volta à Vida

Leonor, 84 anos, freqüenta o núcleo Volta à Vida há 12 anos. “É uma questão de cabeça. Problemas não faltam a ninguém”, comenta Leonor para explicar sua vitalidade e aparência jovial, embora admita que, para vir ao núcleo, tem que fazer um “esforço danado”.

O câncer de Leonor foi diagnosticado quando tinha 72 anos. Sua cirurgia foi um sucesso e não houve necessidade de nenhum tratamento complementar, além da medicação padrão, nos cinco anos posteriores ao diagnóstico. Ela chegou ao “Volta à Vida” à procura de uma prótese, pois soube que a APFCC a fornecia. Foi convidada a participar das atividades e, desde então, freqüenta as reuniões. “O núcleo oferece muita coisa, como palestras, trabalhos manuais, além das aulas de ginástica, dança e tudo mais. Se não venho, sinto muita falta”, afirma Leonor.

Célia, de 85 anos, é apontada como a mais velha do grupo. Viúva há 37 anos, sem filhos, se aposentou como gerente de confecção em uma fábrica de jeans. Nascida no Japão, veio para o Brasil com apenas seis anos, quando adotou o nome ocidental, por ser mais fácil pronunciar. Ela retirou um tumor na mama em março de 1997, na Santa Casa de Misericórdia. “Fiquei apenas três dias internada e fui muito bem atendida. Não precisei fazer mais nada, nem tomar remédio”, conta Célia.

“Venho todas as semanas e adoro! Deixo tudo o que estou fazendo e venho me encontrar com o grupo”, afirma, com seu sorriso fácil. “Estou aqui desde que operei. Antes não conhecia a Fundação Oncocentro (antiga sede do Volta à Vida) e sinto que nasci de novo a partir de então”. Apesar da idade, ainda faz atividades físicas com o grupo, o que contribui para a sua disposição e aparência saudável. “A turma aqui é como uma família e, se tivesse reunião todo dia eu viria, pois minhas companheiras são mais que irmãs”, garante Célia.

Vera tem 76 anos e está no “Volta à Vida” há três, dois anos após ter passado pela cirurgia que retirou sua mama direita. Ela diz que os exercícios ajudam, mas o que mais a auxilia é a companhia. “Em casa fico sozinha. Aqui tenho amigas”, explica. Viúva há um ano, sem filhos, ela mora na zona Norte e não se incomoda de atravessar a cidade de Metrô para vir ao local onde tem a sua única atividade constante.

“Agora tem tantos casos dessa doença. Algumas são mulheres mais velhas, outras nem tanto. Eu, por exemplo, descobri um caroço durante o auto-exame. Fiquei uma semana na dúvida. Depois percebi uma secreção na mama e aí resolvi procurar atendimento médico”. Vera teve que tirar a mama, fazer rádio e quimioterapia. “Com o tempo a gente se acostuma com a doença e encara tudo de maneira normal”, resume.

Com 63 anos, Leila acaba de posar semi-despida para a campanha promovida pelo “Outubro Rosa”, movimento mundial para a conscientização sobre o câncer de mama. “As fotos são para chocar mesmo”, explica Leila. “No meu caso, fiz a cirurgia de reconstituição, mas muitas mulheres fotografadas tiraram tudo e só usam a prótese no lugar, o que dá uma idéia mais real do que acontece,” explica uma das mulheres mais animadas e atuantes da turma do “Volta à Vida”.

Leila descobriu o câncer aos 55 e, apesar de ter sido operada dois meses depois do diagnóstico, diz que esse é o pior período da doença. “Descobri o problema no dia do meu aniversário e, até fazer todos os exames para saber a extensão do tumor, sofri muito,” revela. Sua cirurgia foi em janeiro de 2003 e, onze meses depois ela começou a frequentar o núcleo da APFCC. Agora tem como objetivo atuar para tornar mais ágil o atendimento às mulheres com suspeita de câncer de mama, pois sabe que pelo sistema público tudo pode ser muito demorado, o que só complica o quadro.